Ao formularem e reavaliarem as políticas energéticas, os países enfrentam uma questão: as futuras matrizes energéticas devem refletir as ações que diminuam em ritmo crescente a queima do petróleo, gás natural e carvão, na busca de frear o aumento da concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera. Essa questão vem acompanhada de relatórios de organizações respeitadas, como aqueles do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), advertindo que se tais ações não se concretizarem haverá elevação dos oceanos, secas em determinadas regiões, alterações no clima, etc.
... Mas o que parece é que tais advertências não estão encontrando ecos. Mesmo em nossas casas, verificamos que os utensílios plásticos e as fibras sintéticas (ex. poliéster, acrílico e náilon), cujas matérias-primas vêm do petróleo, convivem intimamente conosco, tendo inclusive preços acessíveis. Vale lembrar que as resinas termoplásticas originam peças para computadores, eletroeletrônicos, brinquedos de nossos filhos, embalagens para alimentos, produtos de higiene e por aí vai.
Ficam as perguntas: as políticas energéticas são irracionais por não terem soluções e ações efetivas para substituir esses “combustíveis fósseis”?
... Há afirmações e/ou previsões sobre a aproximação do fim da era de um dos “vilões mor” da poluição do mundo: o petróleo. Há expectativas e avaliações de que se aproxima uma era sem petróleo nos próximos 40 ou 50 anos, dependendo da velocidade do consumo. E o carvão e o gás natural desempenham também papéis negativos nessa possível “conspiração” contra o clima.
... Sabemos que o petróleo é um dos maiores “business” do mundo, não é um auto-engano? Afinal, o petróleo enriquece muitos países, traz desenvolvimento e conforto a muitos indivíduos e isso sem entrar nos meandros da geopolítica e nos conflitos de dominação. Não é à toa que ele é chamado de “ouro negro”. Além disso, a união “estável” entre as indústrias do petróleo e de transporte, formando um poder econômico fortíssimo, enriquece ainda mais essas considerações. Tudo isso já é suficiente para mostrar a complexidade da substituição do petróleo.
Quanto ao gás natural a situação é semelhante. O GN já é considerado como o energético da atualidade e não mais do futuro. Segundo a agência americana EIA- Energy Information Agency -, o consumo do GN no mundo deve crescer quase 2 % a.a. até 2030, com uma participação nos setores industriais e de geração de energia elétrica de 75 % em 2030. Outro fato relevante é a atual capacidade de produção do gás de xisto nos Estados Unidos que leva a novos paradigmas para indústria dos combustíveis fósseis.
O outro combustível fóssil aqui citado, o carvão, tem perspectivas de aumentar seu consumo também. O International Energy Outlook 2010 (IEO 2010) da EIA em seu cenário de referência aponta que consumo mundial de carvão pode aumentar em mais de 50% de 2007-2035, não considerando os potenciais de redução de gases de efeito estufa. País que consome energia vorazmente, os Estados Unidos têm mais reservas de carvão do que qualquer outro país no mundo. E é de amplo conhecimento que a China usa em grande quantidade o carvão mineral, principalmente na geração elétrica e na indústria. A geração termelétrica a carvão mineral representa hoje quase 40 % da geração do mundo.
... Os formuladores de política energética que têm a responsabilidade de prover energia para as gerações atual e futura estão diante de inúmeras dificuldades para conjugar suas proposições com a mitigação das mudanças climáticas. As principais barreiras, a meu ver, seriam: a disseminação de novas tecnologias que atendam perfeitamente às necessidades executadas pelas atuais e a preços aceitáveis pela sociedade. Um dos entraves mais delicados é a aceitação pelos indivíduos de mudanças em seus padrões no uso de novos equipamentos, utensílios, enfim das novas tecnologias dentro do contexto trazido pelas mudanças climáticas.
Assim, soluções tecnológicas energéticas que evitem ou diminuam o impacto causado pelas atividades humanas ao meio ambiente devem ser introduzidas em períodos, etapas em transição, mesmo que não haja a diminuição desejada das emissões de CO2. As metas nessa transição devem buscar uma diminuição gradual ou um aumento mais lento da taxa de aquecimento global. O processo de apropriação e aceitação (o fator preço tem um peso significativo) dessas novas tecnologias, por parte do indivíduo, dentro de sua cultura é um fator preponderante.
... Trata-se de um contexto extraordinariamente complexo com dezenas de variáveis em que muitas são dependentes umas das outras. É um campeonato com jogos decisivos em que “players” atuam sob pressões competitivas e cujos resultados parciais já afetam a todos os indivíduos do planeta. Quando e como será o resultado final é difícil de se prever.
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Acesso; 15 de agosto de 2011
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